Breve comentário sobre a postura equivocada do vereador Daniel Finizola

Foto: trecho da Enciclopédia das ciências filosóficas, de Hegel,
tirada de Uma História da Justiça do Paolo Prodi.
Por Hilton Boenos Aires

Todas as religiões possuem milênios de experiência em observação, não apenas da alma humana, mas também do arcabouço da própria civilização. Um conhecimento absolutamente fundamental. 

Pensar uma política livre de valores religiosos é impossível, e nos lugares que prática semelhante foi implantada, nada além de desespero, desordem e derramamento de sangue ocorreu. Basta ver os exemplos recentes, do século XX e a documentação de autores minimamente honestos, que a afirmativa se mostra tão evidente, ao ponto de saltar à vista. 

Se, por um lado, a união dos homens em sociedade, é uma condição natural de suas características e de suas operações interiores, os aspectos da transcendência observados com mais ênfase pelos fenômenos religiosos, são igualmente existentes e atuantes. Dito de outra maneira e de forma simplificada: se a política é um elemento constitutivo da vida humana, a religião também o é, de modo que ambas se mesclam e coexistem no todo que é a existência e convivência em sociedade. 

Ora, o "Estado Laico'', como bem disse meu amigo Yuri Silva, só serve como uma ficção jurídica que, na melhor das hipóteses, quer proteger o fenômeno religioso da arbitrariedade de algumas pessoas. Entretanto, se a teoria de que ''o social é o religioso e o religioso é o social'' estiver correta, então, um corpo social estará SEMPRE imerso dentro de um fenômeno religioso, mesmo que não se dê esse nome (é o caso paradigmático das ideologias); a questão se torna, então, em que ethos específico aquele corpo está inserido.

Dito isto, estando ciente de que a religião dá suporte, fundamenta e até mesmo ergue toda a nossa estrutura de pensamento (no individual), e constrói a civilização (no coletivo), a postura de um determinado vereador de nossa cidade, que, em tom caricatural bateu o pé, fez birra, cruzou os braços e se negou a ler um Salmo em uma sessão da câmara, foi, não apenas desnecessária, como também desrespeitosa. O gesto de ler determinado texto em sessões representa, não apenas a fé predominante de nossa nação (e de boa parte dos eleitores responsáveis por ele ocupar aquele cargo), como também os valores sobre os quais nascemos e construímos nossa teia de relações.

A postura birrenta do legislador municipal se enquadra no que foi citado dois parágrafos acima, “o caso paradigmático das ideologias”, pois, pessoas que fazem da política e dos movimentos coletivistas suas religiões, são sempre as que falam do estado laico, numa postura que mais se parece com um Estado ateísta. Me parece uma boa parcela de ignorância. 

(Para uma leitura mais aprofundada sobre tais questões, indico Direito Natural e História do Leo Strauss, e do Eric Voegelin As Religiões Políticas, a própria foto desta publicação já serve como uma leitura inicial.).

Sobre Hilton Boenos Aires, 
Formado em Direito e doutorando na Universidad Católica Argentina.
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Autor Roberto Tinée

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